Snow Patrol Brasil » [Resenha] Snow Patrol e seu império estável em show em Belo Horizonte
out,
15
2012
[Resenha] Snow Patrol e seu império estável em show em Belo Horizonte

O histórico do Snow Patrol pode fazer o espectador de um de seus shows, antes da apresentação, acreditar que o que lhe espera é um espetáculo previsível. A banda construiu seu império sobre fundações formadas por baladas emotivas, que começam com guitarras dedilhadas e pianos e evoluem pra pequenas explosões instrumentais. O histórico de setlists indicava muito bem para aqueles que curtem um estudo mais profundo pré-concerto: todas baladas clássicas Snow Patrolianas estariam lá, todas as trilhas dos momentos mais tristes de Grey’s Anatomy ou da série de sua preferência. De “Run” a “New York”, de “Chasing Cars” a “This Isn’t Everything You Are”.
Mas o show já começou derrubando qualquer traço de previsibilidade. Na verdade, o pré-show já indicava isso claramente. O posto de banda de abertura do show Belo Horizontino do Snow Patrol foi para a Constantina, que conseguiu algo similar a um milagre: conquistar o público de uma banda mainstream de rock inglês com um som instrumental, experimental, que misturava post-rock e sons brasileiros como o forró e o samba. A Constantina fez uma apresentação estonteante.
Ali mesmo qualquer tipo de ceticismo nas apostas para aquela noite caiu. Entre um show e outro, a velocidade do time de montagem de palco do Snow Patrol era embalada não por Radioheads, Coldplays ou Keanes. Eram as batidas dançantes de The Black Keys, Franz Ferdinand e The Stooges que soavam pelo sistema de som potente do Chevrolet Hall, com o adorável intruso menos dançante Teenage Fanclub.
Com as expectativas completamente confusas e os pés agitados para pulos e danças, o público recebeu um Snow Patrol que já começou o show no pequeno (e vazio) Chevrolet Hall como se comandasse um estádio, com a dobradinha elétrica “Hands Open” e “Take Back The City”. Gary Lightbody corria pelo palco, saltava, um frontman energético, que se divertia profundamente ao vivo, como um iniciante bem disposto, mesmo com uma carreira já longa.
Mas essa empolgação crua não é tudo o que é a banda norte-irlandesa, e assim, essa dobradinha agitada ganhou um contraponto em um trio digno de arrancar as primeiras lágrimas dos fãs: a balada “Crack The Shutters”, do álbum mais fraco do grupo, e as excelentes “This Isn’t Everything You Are” e “Run”. “Run” atingiu o público desde sua introdução, e foi cantada com força, de maneira catártica, pelos presentes. Não resta dúvida: a canção do álbum Final Straw é a obra-prima de Lightbody e cia., e é apresentada, ao vivo, como tal. New York ganha um coro motivado pela bandeira de uma garota da grade, com os versos escritos “Come on, come out, come here, come here”. “In The End” empolga, mas perto de uma trinca tão forte e um início brilhante, se torna o momento mais apagado do show.
Respirou e retomou a alegria em In the end? Era hora de preparar para mais lágrimas e emotividade. A balada “Set The Fire To The Third Bar” perdeu a voz feminina de Martha Wainwright nessa versão ao vivo, mas ganhou o dedilhar melancólico de um violão clássico. “You Could Be Happy” foi o segundo destaque real da noite. Gary anuncia que “ninguém fora do país parece conhecer essa música, mas no Brasil, ela é grandiosa” e diz que essa música será do público brasileiro, para sempre. A canção de ninar é cantada por todo o público em sua versão levemente tingida de sintetizadores, e abre portas para a intensa “Make This Go On Forever”, a maior canção de “fossa” feita pela banda britânica, com um final de tirar o fôlego.
“Shut Your Eyes” é feita para que o povo cante junto, mas antecedeu a que realmente arrancou a voz de todos os presentes. “Chasing Cars” foi cantada em uníssono pela plateia, levando ao silêncio de Gary, que olhava perplexo para o público belo-horizontino, cheio de balões e bandeiras. “Chocolate” e “Called Out In The Dark” levaram novamente a plateia a pular, antecipando a transformação do Chevrolet Hall na arena de uma rave tribal na espetacular versão ao vivo de “Fallen Empires”, ousada como o “Mylo Xyloto” tenta ser e não consegue, uma fusão de percussão frenética, sintetizador e mandolin.
O Snow Patrol dos hinos emotivos retorna mais uma vez antes do bis, com a levemente batida “Open Your Eyes”, já gasta, mas ainda emocionante ao vivo. No bis, algo curioso. Antes de uma rendição intimista de “Berlin” (sic, foi “Lifening”), Lightbody relata que encontrou, no avião de São Paulo para BH, um de seus ícones: Ronaldinho Gaúcho. Os atleticanos presentes na arena enlouquecem e Gary é oficialmente visto como um dos norte-irlandeses mais brasileiros da história, talvez. “Just Say Yes” encerra o show em clima de festa, e Gary afirma que o público presente ali foi o melhor da turnê sul-americana, até agora. Depois da entrega emocional, memorabílias choviam sobre a pista: palhetas, setlists, baquetas e toalhas.
O império do Snow Patrol, contradizendo o título do álbum mais recente da banda, está mais firme do que nunca, e tem um dos seus centros, uma de suas capitais honorárias, o Brasil, que recebe a banda pela terceira vez em pouco tempo com honras de titã do rock inglês. Mas o título ainda faz sentido: o grupo construiu seu império sobre impérios em queda, relacionamentos e suas falhas, escombros e outros pequenos e líricos desastres.

Rock’n’Beats


Comente:



Nosso Twitter
Nosso Facebook
Tuites da banda